quarta-feira, outubro 16, 2013

Algumas Fotografias do catálogo dos Encontros da Imagem de 1999



 
 23. Arquivo do Diário de Notícias - Quarto de Bombistas na Prisão do Limoeiro, Lisboa,1924,

 24. Bomba que estava na Polícia de Informação de Estado,Governo Civil de Lisboa 1925
 
  43. Arquivo do jornal "O Século", Um Aparelho Inglês, Lisboa, 30.12.1921

48. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", Mendigo em Belmonte, Belmonte

 49. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", Cozinha Económica, Aniversário, Ribeira Nova, Lisboa,04.08.1926

 50. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", Pátio em Alfama, Lisboa, 1924

 51. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", Duelo Cunha Leal - Valdez, Estrada Militar, Lisboa, 1924

 100. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", Manuel Augusto dos Santos, homem com o peso de 204kg, 24.03.1934

 123. Arquivo do jornal "O Século", Um aspecto do funcionamento do Posto Rádio-Telegráfico da ajuda durante o ciclone que assolou a região de Lisboa, Lisboa, 17.02.1941

 124. Arquivo do jornal "O Século", Um aspecto das festas dos escuteiros nas instalações do Jornal o Século, Lisboa, 07.02.1942

 173. Arquivo do jornal "O Século", O elefante-bébé capturado em Angola para o Jardim Zoológico de Lisboa, 19.12.1954
 87. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", , Primeiras Actividades da Mocidade portuguesa, Lisboa, 15.11.1936

 45. Arquivo do jornal "Diário de Notícias", Telefonista, 1925

220. Arquivo do jornal "O Século", Um aspecto do curioso despiste de uma carroça puxada por um cavalo na Calçada do Sacramento em Lisboa, 18.09.1964

Mais informações aqui:

O Rei do Universo, Manoel Calçada & Bento das Fornadas; Figuras Populares de Vila do Conde

    Este livro Galeria de Figuras Populares é uma compilação de histórias reais sobre várias personagens que viveram em Vila do Conde e arredores. O livro parece artesanal feito de fotocópias retirado da revista do princípio do séc. xx, Illustraçao Villacondense. Escolhi três histórias das figuras populares que considerei mais interessantes.

O Rei do Universo
Quem não conheceu um pobre velho, que viveu muitos anos em Vila do Conde, intitulando-se e sendo conhecido pelo nome do Rei do Universo?
    Quem não o conheceu, julgará inverosímel o ligeiro esboço biographico do que damos apenas alguns traços.
    Não sabemos bem a sua naturalidade nem estirpe, nem temos dados sobre a sua hereditariedade. Já era velho, quando o conhecemos, pois teria perto de setenta annos.
    Vivia n'uma pobre casa, situada na antiga rua das Hortas, e mais tarde mudou para outra, na Rua de Santo Amaro.
    Era um velho d'estatura regular, magro, usava barba toda, branca, mas muito bem tratada. Era pobre mas limpo.
     Tinha até um fardamento antigo, muito bem conservado, composto de casaca azul, com botões dourados, calça  e collete branco, servindo-se d'elle nos dias festivos. Possuia uma pequena bandeira, ou melhor estandarte, bordado por elle a missanga e contas de várias côres, onde se via estampada uma espécie de cruz de Malta, e usava uma banda confeccionada com as mesmas contas.
    Na maior parte das procissões que se effectuavam, em Vila do Conde, elle lá se apresentava no começo, junto da música, com o seu fardamento e banda a tiracolo, levando hasteado o referido estandarte n'uma vara de metal branco, muito bem polido.
    Ia muito bem posto e senhor do seu papel. Era-lhe isso permitido, por ser um pobre velho inofensivo, apenas com a mania de ser o Rei do Universo.
    Segundo informações, que colhemos, soubemos, que elle veio para Villa do Conde das Terras de Santa Cruz, onde já tinha a mesma mania, figurando em muitas festas, que ali fizeram. Quando chegou a esta villa, ainda tinha algum peculiosisnho, mas em pouco tempo tornou-se pobre.
    O Rei do Universo contou-nos com uma certa convicção ter ido já para o céu. Descreveu-nos este, e entre muitas coisas, disse-nos que as paredes eram de pão de ló, e que lá mal um individuo pensasse em qualquer alimento, este logo lhe cahia na bocca.
    Perguntamos-lhe; se tinha ido ao inferno? Respondeu-nos, que não, tentou um dia lá ir, mas , logo ao entrar da porta, sentiu tanto calor, que o obrigou a retirar-se.
    Disse-nos mais, ter passado pelo purgatorio, mas, que pouco se desmoronou, porque estava ancioso por ver o céu.
    Era um pobre velho, maniaco, mas bom homem, e tinha habilidade.
    Em Horticultura e pyrothecnia mostrou elle os seus conhecimentos; n'algumas casas, d'esta villa, a troco d'alimentação, elle tratava muito bem das hortas e quintaes.
    Por vezes n'algumas festividades, realizadas n'esta villa, exhibiu alguns bonecos de fogo, organizados por elle, não produzindo o effeito desejado por falta de material preciso, pois não o podia obter por não ter recursos. Muitas vezes não recebia coisa alguma pelo seu trabalho, e era apupado pelo rapazio, que chamava ao producto de muita canceira, -o fogo do rei do universo- ;vivia, nos ultimos tempos, muito pobremente, valendo-lhe para matar a fome a caridade d'algumas pessoas.
    Elle não mendigava, soffria...
    Era um martyr da sua realeza...
    Morreu, já ha bastante annos, o Rei do Universo.
    Não sabemos se levou para a cova o seu fardamento dos dias de festa, e o seu adorado estandarte.
    Este era pequeno para envolver o seu corpo inanimado.
    Era formado de pequenas contas, talvez jjulgadas pedras preciosas pelo pobre velho, a quem a ideia de realeza offuscou a razão.
    Em campa rasa jaz no cemiterio de Villa do Conde.
    Não tem mausoléu, mas tem perto parte da famosa arcaria, que constituia o grandioso aqueducto do convento de Santa Clara, monumento que elle tantas vezes comtemplou, e que terá de desfazer em ruínas pela acção do tempo e incuria dos homens.

Manoel Calçada

 EX DIGITO GIGANS. Pelo dedo se conhece o gigante. Se anatomicamente é mais ou menos verdadeiro este adagio latino, é certo, que nem sempre estatura physica corresponde à moral e intellectual, nem a beleza condiz com o genio e aptidão.
    Conhecemos, em todos os ramos Sciencias e das Artes, verdadeiros genios e homens notaveis, a quem a natureza não foi prodiga em formosura, nem os coadjuvou, e antes foi avara, sobrecarregando-os com defeitos e disformidades physicas.
    Manoel Calçada, natural de Villa do Conde, fallecido há poucos annos, foi um d'esses exemplares, a quem a natureza não favoreceu, e antes o flagelou com uma disformidade físca.
    Era corcunda. Em tenra idade, não bastando já a sua compleição physica, soffreu uma contusão, do que lhe resultou a disformidade da columna vetebral.
    Esse defeito junto à sua physionomia particular e aos effeitos do vinho, pois era alcoólico, muito concorreu para a sua triste popularidade.
    Tinha, contudo, uma alma d'artista, uma vocação natural, e um acrysolado amôr pela esculptura.
    Manoel Calçada, não era um genio, uma intelligencia, mas um artista amador, cujos trabalhos, executados às escondidas, sem instrumentos aperfeiçoados, revelam muita perfeição, e uma verdadeira competencia artística.
    Muitas pessoas de Villa do Conde e do concelho, conservam em suas casas muitas esculpturas por Manoel Calçada, muito perfeitas e acabadas, podendo rivalizar com as melhores, produzidas por artistas profissionaes.
    Trabalhava muito, e os seus trabalhos em talha eram muito apreciados.
    Muitas vezes atribuiam-lhe tarefas durante o dia par o privar de entregar aos seus compromissos como esculptor, mas elle, todos os momentos, que podia dispensar, aproveitava-os para lançar mão d'um tosco pedaço de madeira para o converter n'uma perfeita esculptura, trabalhando de noite, às escondidas, e com instrumentos imperfeitos.
    Era um artista apreciavel.
    Apesar da sua deformada organização era valente, tinha nervos e pulso.
    Possuia tambem gosto pela musica, e já que não sabia tocar instrumento algum, pedia muitas vezes ao Francisco Carioca, verdadeiro amador de musica, como já fizemos ver, para este desempenhar no harmonio algumas peças. Mu..musica di..direita...
    Muitas vezes, quando travava questões com os amigos, e estava um pouco influenciado pelo alcool, com um timbre de voz e gaguez especiais dizia:
    «O'..olha se..te..vo..to os ar..arpeos es..esga..gano-te»
    Outras vezes alguns amigos o beneficiavam e elogiavam dizia:
    O'...olha, quê..què..queres que..que te fa..faça um..um Christo ou um .. Santo Antonio?»
    E promettia, e fazia-o, porque, dissemos, apesar dos seus defeitos physicos, e vicios, Manoel Calçada era um perfeito artista-esculptor.
    Era uma verdadeira vocação artística, e contudo nunca teve recompensa digna, nem foi aproveitada como devia ser.
    Em Villa do Conde tem havido e ha ainda hoje muitos artistas, cujos trabalhos honrariam os mais nomeados profissionaes, mas vivem obscuros, n'este pequeno meio, sem que as suas obras sejam valorizadas e apreciadas como deviam ser, e sem que possam conseguir todo o material para a sua concepção.
    Em todo o caso quem percorrer esta villa e concelho poderá fazer justiça aos artistas villacondenses e do concelho, vendo e observando as suas obras.

                                                          O Bento das Fornadas
    Já morreu ha muitos annos, o 'Bento das Fornadas, e , embora ate fosse natural de Villa do Conde, foi aqui muito conhecido, porque todos os dias aparecia n'esta villa.
    O Bento das Fornadas, era natural da Galiza, e veio para a Póvoa de Varzim, occupando-se no mister de trazer sacos de Milho(fornadas) para ser moido nas azenhas de Villa do Conde, Azurara, ...
    Era um pobre velho, alquebrado pela idade, expunha-se aos rigores do tempo para cumprir fielmente a sua missão.
    Andava vestido com quatro ou cinco casacos velhos, e punha na cabeça seis ou sete chapéus uzados. Perguntando por que razão assim procedia, respondia: É por causa dos garôtos, que todos os dias pegam commigo, e me atiram pedras, e assim estas, não me me fazem tanto damno.
    Era um pobre velho.
    Quando os dias eram muito tempestuosos pernoitava nas azenhas, valendo-lhe a caridade dos moleiros, que lhe davam de comer e dormir.
    N'uma ocasião, vespera de Natal, veio o desgraçado a Villa do Conde trazer uma fornada, e aconteceu que o dia se tornou tempestuoso. Todo molhado trazido, de frio, o Bento das Fornadas correu d'esta villa, para a Póvo de varzim, perseguido pelos garotos, quando lhe apareceu uma pessoa, que condoendo-se da triste sorte do pobre velhinho, lhe disse para elle ceiar e ficar em sua casa n'aquella noite.
    A principio o pobre homem exitou por não conhecer quem lhe fazia o convite, mas, como elle insistia, e já era tarde, e chovia muito, aceitou.
    Passado pouco tempo, foi-lhe servida uma boa ceia.
    O velho logo que acabou de ceiar, exclamou:
«Louvado seja Deus, não me lembro de comer tão bem!»
«Santo Natal! .. Deus o abençoe esta família, e a alma bemfazeja que para aqui me trouxe...»
     O infeliz chorava d'alegria, por saber que n'aquella noite, pobres e ricos, todos ceiam em família, e , elle longe dos seus qual encarcerado ou exilado, teria de recolher ao seu miseravel quarto, em que vivia, senão fosse o anjo de caridade, que o levou a gosar delicias, que lhe fizeram esquecer por momentos, as agruras da sua vida, e o isolamento da família.
    Santo Natal!! repetia elle.
«Deus nasceu n'umas palhinhas, para nos dar o exemplo de humildade, e suavizar a pobreza, mas assim como a elle uma estrela servia de guia, para ser adorado pelos reis, a mim uma estrella me guiou para esta casa, onde estou sendo adorado por esta família. Deus a abençoe !..»
    Depois de rezar deitou-se, e dormiu toda a noite. Quando a luz do dia principiava a iluminar-lhe o quarto, o pobre homem acordou e parecia-lhe tudo um sonho!..
    Esfregou bem os olhos, e viu que era uma realidade.
    Levantou-se, e não sabia como agradecer tão grande obra de caridade.
    Almoçou, foi ouvir missa, e quem o visse na rua, não diria, que era Bento das Fornadas, pois ia limpo, e não levava senão um chapéu na cabeça, e um casaco!.. Até se lembrou que os garotos não mais lhe atiravam pedras!
    Jantou bem, e à tarde foi para a Póvoa, depois de beijar a mão ao seu bemfeitor, carregado com a roupa velha.
    Muito bem comportado e morigerado, era considerado, n'aquella villa como um santo. Quando morreu, muitas pessoas de todas as classes cocorreram para o seu enterro, e, segundo nos consta, foi depositado o seu cadáver, n'um jazigo de familia, d'umas das pessoas d'aquella villa.
    Durante muito tempo uma verdadeira peregrinação se estabeleceu para o cemitério a  visitar o jazigo de Bentos das Fornadas, pois como disse, era considerado santo pelas classes baixas d'aquella villa.


quinta-feira, agosto 01, 2013

Exposição no Tasco do Cunha, Amares, Encontrarte 2013


Aguarela sobre Toalhete, técnica mista feita com molho da feijoada, verde-tinto e piri-piri

segunda-feira, maio 20, 2013

Carrilhões da Alegria, Dr. Urânio apresenta:


Apresentação do primeiro filme do 3º Ciclo de Cinema d'Os carrilhões da Alegria: Baron Prásil de Karel Zeman
Clube Desportivo do Praça da Alegria
Avenida Rodrigues Freitas 207-r/c, 4000-421 P Bonfim, Portugal Porto, Portugal

quinta-feira, maio 16, 2013

Leilão Fúnebre

Venho por este meio enviar informação relativa ao nosso próximo leilão
de Insolvência da empresa Augusto Sacramento _ Artangola ( Barcelos).

Diverso material fúnebre, jazigos, lareiras, elementos arquitectónicos, peças decorativas, maquinaria e todo o equipamento do processo de preparação
da pedra e algumas viaturas e empilhadores.

Uma excelente oportunidade de negócio com valores bastante apelativos.
Queira por favor repassar este email a possíveis interessados no Leilão.

Para mais informações solicite a relação de bens do mesmo.
Hoje, Quinta-feira, 16 de Maio pelas 9h00 às 12h30 as visitas serão na sede da Empresa em rio Covo e no Stand de Gamil ( Barcelos)

terça-feira, abril 23, 2013

Clube Desportivo de Portugal

Por trás de Campanhã podemos encontrar este clube desportivo onde se pode comer boa bifana e sandes de chispe, enquanto assistimos aos jogos ou aos treinos deste clube. Os donos são muito simpáticos com um pequeno cãozinho que nos faz companhia sempre que comemos os petiscos. Há também uma máquina de apanhar objectos que aplaude nos momentos oportunos. O bagaço é de Carrazeda de Ansiães.







Eduardo Alarcão, entre o "naivismo" e um estilo próprio

Enquanto remexiam nuns livros em sua casa, dois amigos encontraram um pequeno cartão com esta imagem na frente:

Na parte de trás dizia:

Nasceu na Parede em 1930 e tudo indicava que seguiria a carreira das Armas, depois de ter realizado o curso da Academia Militar e de ter ingressado na Arma de Cavalaria. Ferido em combate, tem de abdicar da sua vida militar e começa então, aos 47 anos, numa brilhante intervenção como pintor de estilo "Naif". Seduzido pelas ruas e praças de Lisboa, pelos rituais populares e religiosos, cria as suas obras com tal originalidade que atraiu, imediatamente, a atenção da crítica especializada e dos coleccionadores ... Pela evolução artística que vem experimentando, Alarcão está hoje entre o "naivismo" e um estilo próprio que o persegue.

Clica aqui para ver mais trabalhos do artista.
Obrigado ao Fernando e ao Zé por cederem o cartão!

quinta-feira, março 28, 2013

Baixa a tola, ó moina!


Caiu o que restava da Tasca Baixa-a-Tola.
Aqui vai o texto do livro As Tascas do Porto de Raul Simões Pinto:
"Era uma tasca muito castiça, com uma entrada pequena (Talvez daí o nome Baixa-a-Tola). Segundo antigos clientes e hoje velhos «cotas» da Invicta, «provavelmente, seria uma das mais famosas tascas ribeirinhas, onde se comiam as melhores mílharas de sável do Porto».
Por fim, as derrocadas da escarpa, as pedras e o lento fim das barracas dos morros das Fontainhas acabaram com o Baixa-a-Tola... Mantendo-se ainda como recordação a fachada silenciosa com o mesmo nome."
No link abaixo podemos ler a história do ultimo dia do Baixa-a-Tola entre pancadaria e filosofia: http://filosofosdetasco.blogspot.pt/2009/01/o-fim-do-baixa-tola.html#comment-form
 

quinta-feira, março 21, 2013

Esquemas fantásticos do Japonês Kenichi Yamazaki

 
Kenichi Yamazaki, nascido em 1944, na província de Niigata. Desde a sua admissão no hospital psiquiátrico, yamazaki desenha todos os dias. Todos os seus desenhos se parecem a desenhos técnicos de arquitectura ou engenharia e são realizados em papel quadriculado. Ele usa os instrumentos do desenho profissional que guarda numa caixa. Desenha essencialmente plantas de centros de controle que imagina dirigir.
Yamazaki foi internado durante 25 anos. Aparentemente, os sintomas dos seus problemas psiquiatricos aparecem pela primeira vez quando trabalhou temporariamente como funcionário público em Tokio. Fez mais de 3000 desenhos.
Inversão papel milimétrico, compasso, caneta esferográfica, marcador de agua, lápis de co, compasso
Sem titulo (barco grua) - papel milimétrico, compasso, caneta esferográfica, marcador de agua, lápis de cor - 209 mm por 296 mm,

Clica aqui para ver vários desenhos
Clica aqui para ver mais sobre arte bruta japonesa

segunda-feira, março 18, 2013

Tia - luzarina


Cassete de vídeo encontrada.
Na k7 diz: Tia - luzarina.
Na capa diz: -Tia Ester - Pois aqui esta a lembrança da sua irma que nos deixão tristes mais quando você vir esta cassete lembresse dela a rir como elha aqui esta é pena ser so um minute mais e com muito gosto que lhe oferecemos le esta lembrança. Beijinhos e abraços. Ester é honorio


quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Resumo do livro Pintores e Poetas de Rilhafoles de Júlio Dantas de 1900

Embora Dantas, influenciado pela nova psiquiatria italiana do final do século XIX, tenha conferido à arte dos loucos um nível estético nulo, a importância que lhe deu a nível psiquiátrico fez com que criasse um documento importantíssimo para a história da Arte Bruta de Portugal. Várias vezes o autor faz a comparação da arte dos pacientes com vários artistas e movimentos da época remetendo ambos para uma arte degenerada. Este é um livro de essência estética fascista e dogmática usando a arte Outsider como o mau exemplo a seguir. Vou deixar o 4º capítulo inteiro na publicação a seguir, pois são 12 descrições de pacientes, das suas doenças e das suas obras, o escritor divaga entre admiração e a repulsa em relação aos poetas e pintores de Rilhafoles, penso que o último será Ângelo de Lima, o poeta.

I - A ideia de fazer esta monografia surgiu ao autor ao observar a colecção de Miguel Bombarda em Rilhafoles, influenciado por um artigo de 1989 de um psiquiatra americano chamado Ales Hrdlicka. Considera que a loucura sempre fez parte da história de Portugal inclusive de Reis e Rainhas, defendendo que para um crítico de arte é necessário conhecer a arte dos manicómios para a diferenciar da arte oficial.Para o autor embora sendo uma arte menor, a arte dos loucos tem uma grande importância para a psiquiatria, pois os doentes ao não conseguirem exteriorizar o seu sistema delirante através de uma comunicação verbal, pode-no exteriorizar através duma pintura ou de uma carta.

II - É reforçada a ideia de que a colecção de Rilhafoles em geral é bastante vulgar, com valor estético mínimo ou nulo, o grande valor é exclusivamente psiquiátrico. São os delírios e as alucinações transportados para o papel que originam estes documentos plásticos. Tal como a paranóia que alastra para fora dos muros dos "manicómios e alastra, cá por fora, dando os revolucionários, os anarquistas, os malucos, os santos, e toda essa galeria de figuras de cera da literatura e da arte decadente, a que é de uso chamar simbolistas, místicos, neo-goticos, bizantinos, pré-rafaelitas, e vários outros nomes de gíria bárbara criados com pior ou melhor fortuna pelos pseudo-génios da Dissolução."

III - A paranóia é a única raça de loucura compatível com a vida social, sendo a decadência artística o primeiro sinal da fraqueza de um povo e o início do fim de uma raça.

IV - Em Rilhafoles há muito mais pintores que grafómanos, pois predominam os analfabetos. O autor prossegue valorizando alguns dos artistas loucos. Os grafómonos exprimem-se através de várias técnicas: autobiografias, cartas eróticas, folhetos reformatórios, jornais e sátiras hospitalares.

V - Dantas faz uma divisão em nove categorias e descreve-as:
a) Anacronismo. Regressão -  A mente de um paranóico é um regresso aos antepassados ancestrais e de si mesmo. Sistematizações arcaicas aplicadas como sistematizações superficiais com origem na ignorância.
b) Simbolismo, Alegoria - Os loucos são primitivos, demonstram-no  por exemplo na obsessão pelo religioso e na ressurreição arcaica das histórias dos príncipes e dos réis. "A verdadeira característica da regressão paranóica não é a escolha do motivo obsoleto; é o anacronismo da maneira, da intenção, do processo, da técnica, o recuo da visão estética, do sentimento da cor e do sentimento da forma, todo esse ar de manifesta primitividade que faz regressar de muitos séculos a arte."
c) Simetria - Quanto menor é a inteligência de um doente maior é a tendência para a simetria
d) Cromofilía - Os pacientes muitas vezes desenham pequenas figuras geométricas simplesmente pelo prazer de as colorir. Muitas vezes procuram a intensidade do colorido, buscando a violência, a cracocromia. É comum recortarem papel de cor e colar no desenho.
e) Auto-reprodução somática - Os artistas loucos estigmatizam sempre as suas características, reproduzindo-se a si mesmo nos seus trabalhos.
f) Onomatopoiése, neologismo - O calão, a gíria criminal, a gíria dos malandros é usada também pelos paranóicos, maníacos, epilépticos e criminosos natos. Falta um estudo do calão popular em Portugal
g) Incoerência - Muitos dos documentos escritos são criados sem uma lógica, a repetição é bastante comum, a mistura de diversos contextos, linguagem fragmentaria, grotesca. Por vezes o paciente cria uma gíria individual descrevendo as suas alucinações ou ideias, um verdadeiro «calão
paranóico», que torna ás vezes difícil a interpretação dos seus documentos.
h) Erro egocêntrico - Interpretação errada do exterior, perverte e deforma o mundo circundante face ao seu ego. Daí o estranho e monstruoso das criações do paranóico, quando referidas ao seu sistema delirante.
i) viciações epilépticas - Júlio Dantas reforça a ideia de que não há um sequer génio neste hospital psiquiátrico, descrevendo as características negativas.

VI - Todas as características anteriormente referidas podem ser vistas nalguns dos nossos pintores e poetas mais altamente cotados. É a arte decadente a que mais pontos de contacto oferece com a arte manicomial. É preciso mostrar à crítica a arte manicomial, para que a arte sã evite os seus defeitos para poder educar a grande massa que não sente, nem pensa por si.

4º Capítulo do livro Pintores e Poetas de Rilhafolhes de Júlio Dantas

I. — A. G., 3o anos. Pintor decorador. Euricefalo. Índice cefálico : 78,2 (15,8— 20.2). Orelhas de lóbulo aderente ; disposição anómala das raízes da crura furcata (tipo Stahl). Pupilas iguais, mioticas, não se movendo á acomodação e movendo-se á luz. Convulsões fibrilares ligeiras nos lábios e massetéres. Tremor episódico das extremidades. Embaraço da palavra. Nível intelectual bastante descido. Insuficiência ética e estética. Amnésia. Preso várias vezes por atentados públicos ao pudor. Entrada para Rilhafoles em 1894.
Diagnostico: demência paralítica — Curso de artes decorativas em Paris. Trazia os quadros debaixo do braço, mostrava-os a quem quer que fosse, e pedia, á queima roupa, dez tostões emprestados. Era a fórmula clássica do encosto. Agarrava-se na rua, violentamente, ás mulheres, forçando-as a acompanhá-lo. Hiperestesia sexual expressa nos próprios motivos picturais. Mais tarde, floração de um delírio de grandezas de colorido inventório, perfeitamente documentado num folheto de sua lavra que consegui obter e no gráfico de um dos seus inventos, o «motor eléctrico de vácuo», que existe na collecção de Rilhafoles. O folheto intitula-se : As mulheres desmascaradas, estudo do natural por A G., o qual demonstra que o espirito tem uma mecânica especial á qual obedece e de que o corpo é o mais fiel interprete. A sua publicação data de 1886. É um apontoado de incoerências, em que o doente, do alto duma charra erudição que sôa a prata falsa, se arroga, como grande filósofo, a descoberta de certo instínto magnético psicológico das fêmeas, a qual constitue, escreve o autor, uma das maiores descobertas d'este século (pág.18). A história deste folheto está, de resto, ligada a um desastre conjugal. — Mas o que especialmente nos interessa, no doente, é a parte pictural da documentação. A. G., que era, segundo informações colhidas, um medíocre pintor decorador, quasi improdutivo, desentranhou-se, com os pródromos da périencefalite, num nunca acabar de figuras decorativas, de motivos ornamentais, de projetos de fontes e piscinas, tudo dado em belos gouaches, cujas principais características são a riqueza poética, o colorido sensual da criação, a exuberância imaginativa, a feição sempre nova e sempre imprevista dos motivos. O inicio da cerebropatia é, muitas vezes, a idade d'oiro do paralítíco artista, — o que se não deve estranhar dada, no período de excitação da paralísia, a maior intensidade na reprodução das representações e, por conseguinte, o acréscimo de força imaginativa. Mas, observando mais cuidadosamente os documentos do doente, não tardamos em descobrir a nota vesânica a par desse falso brilho e dessa notável riqueza poética. De feito, o instinto da academia perde-se ; as proporções desaparecem : a figura humana  toma um ar caricatural. O motivo decorativo torna-se grotesco, barroco, quase monstruoso por fragmentos, conservando-se rico mas relativamente puro no resto da obra : daí o desequilíbrio que logo á primeira vista fere o observador. O documento ganha em riqueza imaginativa o que perde em valor estético absoluto. Outro facto que desde logo impressiona na observação superficial é a insistência do doente sobre os mesmos motivos : trechos de fontes ornamentais, nús míticos, figuras semicápras, brutescos, mascaróes, gárgulas. Esta insistência parece-me  própria de todo o vesanico. — Ultimamente, o nosso paralítico já nada produz. Grande indiferença. Inteira derrocada dos sentimentos estéticos. Lapsus memoriae : de alguns gouaches que lhe mostro já não se lembra de que foi elle o autor.
 Uma  Gouache» do paralytico geral A. G. (Obs I)
Retrato do epiléptico P. R. feito pelo paralytico geral A. G.
II. — J. M., 35 anos. Pintor decorador. Temperamento nervoso. Constituição forte. índice cefálico 74,4(14,8—10.9). Orelhas de lóbulo aderente. Grande desigualdade da face : lado esquerdo muito mais volumoso do que o direito. Grande reentrância nasofrontal — A entrada para Rilhafoles, esboço de ideias de perseguição, preocupações hipocondriacas : está podre por dentro, etc. Confissão de hábitos alcoólicos e de excessos masturbatórios. Ideias de suicídio. Tentativa de precipitação de lugar elevado (Janeiro, 1900); tinha na algibeira um papel onde se lia «aqueles que eu supus serem-me caros foram os meus traidores. Resignem-se agora."
Diagnostico: loucura alcoólica.- Não consegui obter os antecedentes artísticos do doente. Os documentos que deixou, largos estudos a pastel, são, apesar duma certa dureza, excelentemente executados. Sente-se ali o artista, o profissional. A maior parte dos pastéis está inacabada. Pela sua natureza especial pouco interessam ao psiquiatra. São paisagens e marinhas, realizadas com um inteiro conhecimento da técnica, duma feitura paciente, e onde a custo se enxerga a nota vesânica. Um deles, de execução manicomial, já é mais eloquente: uma grande àrvore nua, tronco torso e rugoso, esbracejando num céu doirado de sol e prenhe de pastadas roxas. Semelhante estudo, evidentemente feito de cor, traz uma manifesta monstruosidade. A imaginação que produziu esse tronco brutal, esbrazeado e torcido, é bem a imaginação dum louco. — Ao cabo dum período de improdução, o doente sai, no mesmo estado.
III. — F. A. d'A., 28 annos. Cocheiro. índice cefálico 78,0 (14,9—9,i)- Platicefalo. Lóbulos da orelha
aderentes; helix desdobrada. Nariz inclinado,de bordo irregular : perfil seguindo o da fronte, sem reentrância. Abóbada palatina ogival. Osso transversal do crâneo fortemente convergente, de maneira que a parte superior faz um ângulo, pouco mais de recto, com os ramos laterais. — Reservado, evidentemente dissimulador. Alucinações do ouvido. Esboço de idéas persecutórias em período de pré-sistematização. Supostas perseguições, lá fora, levando-o a agressões. Condenado a quatro meses de Limoeiro por ferimentos. Em Rilhafoles teve uma balanopostite que supoz venéreo inoculado por um criado: daí, agressão. —

Diagnostico : paranóia primitiva com delírio de perseguições. — Foi só depois de internado em Rilhafoles que se manifestaram as tendências artísticas do doente. Essa floração, devida por certo á intimidade do epiléptico P.R., seu mestre (obs. IV) começou bruscamente por umas largas composições de carácter religioso, sobre tudo figuras de santos e cenas do Novo Testamento. Entre as mais interessantes aparecem-nos um S. Pedro Romano, uma Ceia apostólica, um S. Lucas e um S. Joaquim. Pela primitividade das atitudes e das perspectivas, pela índole mística dos motivos, pelo excessivo culto das roupas, sempre exaradas e sempre anacrónicas, pelo ar convencional e velhorro dos movimentos e dos gestos, pelo carácter geral da composição, enfim, as pinturas do nosso paranóico sugerem, ainda que Ionginquamente, alguns góticos piores das Janelas Verdes. A semelhança chega a ser ás vezes tão flagrante, que essas figuras de santo, apesar de inegavelmente originais, parecem á primeira vista copias dos «primitivos». Tanto mais essa
ideia nos acode, quanto é certo que há nas tentativas do doente um forte instinto da composição, da côr e da atitude, verdadeiramente extraordinário tratando-se dum louco sem anterior cultivo. O carácter de primitividade não vem, por conseguinte, do tosco das figurações; mesmo porque, nesse caso, todas as figuras criadas pelo louco não artista nos lembrariam a primitividade dos góticos. Há. necessariamente, mais alguma coisa nas pinturas do paranóico que nos ocupa, e essa alguma coisa poderia, se quiséssemos teorizar, lançar-se á conta da própria paranóia, como expressão dum forte anacronismo. Outra coisa a notar é a independência pouco vulgar entre as tentativas picturais do doente e o conteúdo das suas ideias delirantes, facto talvez devido ao estado de pré-sistematização dessas ideias. — Uma nota curiosa: os documentos do nosso «primitivo» teem, todos eles, assinaturas e ofertórios charros do epiléptico P. R., grafómano e borrador incorrigível, que deles dispõe a bom talante, como feitura sua. Dai, a natural confusão que á primeira vista pode existir entre a documentação dum e doutro.
 A Ceia apostólica composição do paranóico F. A. d'A. (Obs III)
 S. Pedro Romano, composição do paranóico F. A. d'A. (Obs. III)
IV. — J. P. R, 40 anos. Professor de instrução primária em Montemór-o- Velho. Acrocéfalo. Vesgo do olho direito. Formidável avanço do maxilar inferior. Extracto dos documentos de admissão: monomania incendiária, obscenidades, agressão. Pretende uma cadeira para reger. Estado demencial. Ataques epilépticos frequentes: o carácter muda então, de todo em todo; torna-se silencioso, desconfiado, irritável; o rosto apresenta-se túrgido. Luxação do maxilar inferior, por duas vezes reduções difíceis.
Diagnóstico: loucura epiléptica. — Grande soma de documentos, ao mesmo tempo picturais e escritos. Em todos eles. a expressão dum profundo estado crepuscular. Feitio hipócrita; geitos de tartufo; mímica grotesca. Motivos documentais quasi sempre religiosos : altares com sacrários, tocheiros e cruzes, conseguidos pela abusiva colagem de papel doirado ; ás margens, figuras estupendas, mulheres esmamaçadas, verónicas, vasos de oiro, animais fabulosos, e no verso, escrito em latim lazerado, o Tantum ergo. Uma das suas composições mais interessantes é o Dia de Natal: a Virgem, de uberes á mostra, um jumento evangélico, ao alto uma grande máscara de papel doirado figurando o sol, e nos baixos, em chão verde, três pastores de cabras com estes dizeres : « Vamos vêr o menino de S. José e Nossa Senhora, ho rapaseko ! Sim, que é Jesus, filho de Nosso pai Eterno? A Belém e mostremos-lhe o gado.» Este documento dá bem a medida do estado crepuscular do doente. Escusado dizer que,pelo lado pictural, como execução, o valor é nulo. Observação curiosa: todas as cabeças humanas que o doente figura, todas as suas verónicas, são volumosas na face e acanhadas no crâneo, parecendo, dum modo canhestro, é claro, reproduzir-lhe a estigmatização somática. Mas a principal obra deste curioso epiléptico é uma brochura manuscrita, iluminada pelo próprio doente, e que dá pelo nome de «Método das Principais Artes Universais». É, como o titulo indica, um tratado das várias artes e ofícios, começando pelos trabalhos da lavoura e terminando pela «arte barbeiral». O doente, como já dissemos, pretende uma cadeira para reger e quer que esta e outras obras de sua lavra sejam adoptadas nas escolas. De vez em quando escreve ao rei de Itália pedindo a adopção dos seus livros nas escolas primarias italianas —Ultimamente
tem insistido nos motivos litúrgicos, na figuração de objectos do culto externo, com as mesmas abusivas colagens de papel doirado, pejando largos cartões que envia depois, em ofertórios cheios de diminutivos melosos, «ao seu amado Director que o curou dos acidentezinhos epilépticos (sic).»
V. — C. A. das N.. 20 anos. Asilado. índice cefálico 76,0 (14,6—19,2). Fronte fugidia. Abóbada palatina funda. Por várias vezes, a fulguração sagrada, Agressões aos empregados. Tentativas de evasão.
Diagnóstico: loucura epiléptica —Documentação pictural unicamente curiosa pela insistência nos mesmos motivos — figuras aladas, objectos domésticos vulgares, animais repugnantes — e pela impropriedade na distribuição da côr, dando em resultado uma perfeita cacocromia : bois verdes, osgas vermelhas... De quando em quando, figurações simbólicas incompreensíveis, que o doente se nega a explicar. Estado demencial.
VI. — J, A., (o caldeireiro), 22 anos. Acrocefalo. Índice cefálico 77,0  (13,7 — 17,8).Crâneo ogival. Fronte estreita. Pelada. Paludismo: splenomegalie. Gagueira. Mãe alienada. Fulguração não observada  mas acusada pelo doente. Nível intelectual baixo.  Feitio epiléptico: "vossa excelentíssima, vossa reverendíssima..." Reclusão penitenciaria.
Diagnóstico: loucura epiléptica. - Documentos curiosíssimos. Versos escritos à feição de prosa, numa ortografia detestável porque o doente é um inculto, palavras separadas por pontos, abuso de maiúsculas. Reduzindo alguns desses manuscritos a uma forma legível enxergam-se alguns conceitos poéticos que vale a pena transladar, e tanto mais interessantes quanto é certo tratar-se dum degenerado quase analfabeto, que deve as suas únicas luzes á educação penitenciaria :


«Vem vento, levanta a folha.
Na sepultura vai cair;
Bem alto é céu mas ninguém
Lá pode subir.»

«Dizem que o céu é baixinho
Ninguém lá pode chegar:
Inda não houve dinheiro
Para o comprar.»
«Um dia subi ao freixo,
Quebrei um galho e cai:
É a minha condição. .
.Nunca mais alto subi.»

«Há gente que quer ser sabia
E traz o saber guardado;
Mas não houve quem soubesse
Como o homem foi gerado.»

«O sol nasce no nascente
E ao poente se vai pôr:
Entra logo num sacrário
Onde está nosso Senhor.»

Estes versos, assim tornados legíveis, são dum intenso sabor popular e traduzem conceitos líricos que muitos poetas cultos não desdenhariam. Há neles um largo instinto do ritmo. É bem a mesma poesia que, entre falantes, criminosos-natos e coloris de cachimbo, arranhando a bânzara nas velhas baiucas, produziu um dia esse eterno e precioso Fado!
VIIF. O. e V., .54 anos. Formado em matemática pela Universidade de Coimbra (?). Entrada para Rilhafoles em 1872 e saída, no mesmo estado, em 1894. A papeleta nada refere sobre antecedentes hereditários e sobre estigmatisação somática. Diagnostico: paranóia primitiva com delírio de grandezas. — Delírio por assim dizer nobiliárquico. Deixou-nos, numa preciosa documentação pictural e escrita,a história do seu sistema delirante. O que mais interessante nos parece, nessa documentação, é a feição quase exclusivamente heráldica das ideias do doente. Desfia a sua história genealógica que remonta á dinastia dos Faraós e illumina-a pela figuração heráldica. No topo das folhas em que escreve, pinta, á feição de timbre, três flores de liz em campo azul. Ele mesmo descreve esse timbre: «... a esfera o Universo corada de azul celeste com as três flores de liz de oiro chama- se França real e imperial. . . O coxim da coroa é rematado de flores de  liz de ouro de menor altura do que um terço do raio correspondendo as competentes quatro em cada uma das generatrizes quer ortogonais quer obliquas...» A geometria posta, como se vê, ao serviço da heráldica. Perguntado sobre os motivos que o levavam a usar as armas de França, responde: «... uso-as em virtude de eu representar os direitos e Acções de meu pai Luiz XVII, que os testou todos a meu favor. . .» E mais adiante : " Outras representações ainda possuo de François de Valoys, duque de Alençon, que é a equivalência primeira e principal das armas de França...» Quando a documentação histórica falece e para que não haja duvidas sobre a autenticidade dos seus direitos ao uso de tal ou tal símbolo heráldico, recorre á resolução pelo calculo da forma geométrica dos escudos. Mas o que sobre tudo nos interessa, neste paranóico, é a exteriorização pictural do seu sistema. Os seus manuscritos estão semeados de figurações incompreensíveis e extravagantes, sereias de seios inverosímeis e caudas escamosas, brasões d'arnias atropelando toda a heráldica, divisas em latim: «Nec Pluribus Impar», «Ascendo, non Descendo»,— esferas consteladas, coroas reais fechadas com figuras alegóricas no topo das cruzes, «os santos patriarcas segurando com uma das mãos o escudo brasonado e com a outra a lira d'ouro. . .», monstros heráldicos de escamas verdes, uma multidão, enfim, de expressões nobiliárquicas figuradas, que são, por assim dizer, a materialização do sistema delirante do nosso paranóico. A tendência para o símbolo, já de si característica da paranóia, sobrepõe-se, neste curiosíssimo caso, a feição heráldica e por conseguinte aqui-símbolica do conteúdo das ideias delirantes. O doente era um megalómano grave, um megalómano erudito. As suas ideias de grandeza limilavam-se a locubraçóes genealógicas e á feitura de símbolos nobiliárquicos. No hospital, durante o seu internato, não tomava atitudes , nem fazia exibições decorativas : não apresentava a espectaculosidade de tantos outros delirantes ambiciosos (caso Barreirinha).  Ás vezes, levado pela sua tendência heráldica a descrever pedras de armas que existiriam sobre os portais de moradas suas, mete-se pela arquitectura. Falando de certo palácio da rua do Bispo (Funchal) classifica-o de «ordem lusa, caracterizada pelos losangos (sic) que ornam as bases das colunas.» Descrevendo a casa de Colombo e figurando-a, diz: «... mostra a figura que o edifício é de ordem coríntía caracterizada pelos seus distintivos, as folhas de acanto...» Tudo aproveita e em tudo encontra relações com o seu sistema delirante (carácter egocêntrico): uma inscrição, um portal, um documento lido algures num tombo. De resto, coisa relativamente rara, não se defendia. «E um espirito muito simples, escreve o prof. Bombarda numa nota da papeleta, que comunica ao primeiro que apareça a larga soma das suas ideias grandiosas.» A nota mais repetida em todos os documentos é a da pretensão á coroa de França. Julga-se filho de Luiz XVII. A certa altura abre um parêntesis no seu delírio para fazer a história das suas dentições.
Uma pagina do livro de heráldicas do paranóico F. O. de V. (Obs VII)
VIII. — L. M. e L., 20 anos. índice cefálico 78,9 (14,2-18,0). Crânio assímétrico. Orelhas em ansa. Delírio polimorfo de degenerado: grande poeta, grande músico, etc. Saudações lembrando o tique de Salaam. Pai alcoólico e suicida. Mãe histérica. Condenação por furto.
Diagnostico : paranóia primitiva com delírio de grandezas. — O doente deixou um manuscrito deveras curioso que, ao menos pelo lado gráfico, muito interessa ao psiquiatra. Cada folha abre ao topo por dois ou três versos, de natureza evidentemente lírica, mas incompletos, incoerentes, sem métrica e ás vezes ilegíveis:
«Rasga o peito pomba celeste,
Pomba bella no brilho. . .
Pomba que foste bella,
Soffre »
As aliteraçóes e as insistências são vulgares. Daí até aos baixos da página o doente compraz-se na repetição das mesmas palavras em vários tipos de letra,
floreando e iluminando as capitães, e metendo de permeio figurações simbólicas. Estas viciações são absolutamente características do documento escrito de todo o paranóico.
IX. — L. d'A. P., 34 anos. Microcefalia. Avó materna: acidentes nervosos. Uma colateral beata. O doente, segundo informações da mãe, fugia de casa e passava a vida nas igrejas.
Diagnóstico: idiotismo. — Grandes desenhos lineares, formados de elementos ordenados simetricamente, dando a impressão de mosaico, e que o doente executa só pelo prazer de colorir. Algumas dessas estranhas figurações geométricas, séries de rectângulos, losangos e trapézios diversamente dispostos, são, segundo o dizer do nosso microcéfalo, salões, praias e prédios. Forte cromofília.
X. — A. P. D., 55 anos. Índice cefálico 76,7 (14,3-18,7). Orelhas mal modeladas, sobre tudo a direita, e assimétricas (tipo Blainville). Herança do lado materno. Ideias de perseguição sistematizadas. Interpretação falsa de factos mesmo insignificantes. Ilusões várias. Reserva. 
 Diagnóstico: paranóia primitiva com delirio de perseguições. —Exteriorisação do sistema pelo documento escrito. Gráfica vertiginosa. Figurações simbólicas substituindo ás vezes as palavras. Abuso de itálicos, de parágrafos. Mudança constante do tipo de letra; locuções repetidas; impropriedade de pontuação; disfrásia. Interpretação egocêntrica de todos os factos. Vocábulos ingleses, franceses, portugueses, alemães: confusão
sintaxica. (Veja-se o autografo da pag. seguinte).

XI. — A. P. C, 54 annos. índice cefálico 78,0 (14,4-18,3). Face assimétrica. Abóbada palatina funda. Tremores fibrillares ataxiformes da língua, lábios, massetéres. Tremulação das mãos. Complexidade de formas delirantes sucedendo-se por largo tempo sem qualquer fio de ligação lógica. Delírio esboçado desde a infância, desenvolvendo-se na puberdade. Alucinações visuais referentes a essa época: visão dum anjo de rosto nobre e formoso, cabelos longos e esparsos, vestido talar cor de rosa aparecendo por detrás «duma amendoeira florida e jocunda, da coma ao tronco». Mais tarde (1881) tinha o doente 38 anos, irrompe a paranóia persecutória. Três anos depois, eclosão dum delírio inventorio: supõe ter descoberto a direcção dos balões; espalha pelas taceiras dos livreiros projectos e gráfícos. Finalmente (1891) aparecem ideias eróticas. O «anjo da amendoeira» resurge, mas desta vez o doente reconhece-o: é a Rainha. O delírio fixa-se, sistematiza-se. Escreve á Rainha; ameaça o Rei. Apreensão de cartas; prisão; reclusão hospitalar. O doente defende-se, dissimula, nega: mais depressa, uma carta sequestrada dá a chave do delírio. Diagnóstico : paranóia originária com delírio ambicioso de colorido erótico; episodicamente, ideias de perseguição e ideias inventorias.—O presente caso deu margem a um belo estudo do professor Bombarda sobre essa forma degenerativa há anos fixada por Sander. É pelos traslados desse excelente estudo que eu conheço dois folhetos feitos publicar pelo doente. O primeiro intitula-se : «O meu pacto com o diabo ou a primeira metade» ; o segundo: «O meu anjo redemptor ou a outra metade» Parecem suceder-se nos folhetos, nota o meu ilustre mestre, as duas formas de perseguição e de grandeza do delírio crónico de gerente, a primeira correspondendo ao período que vai desde 1880 a 90 e a segunda ao período que decorre desde 1890 até hoje (1900). A notar, no primeiro folheto, a Índole especial e por assim dizer mediéva do delírio persecutório: ideias demoníacas, pactos com o diabo, etc. O segundo folheto, esse, é por assim dizer a integração da figura da Rainha no símbolo adolescente do "anjo da amendoeira». Estes documentos são realmente muito interessantes. Grande poder imaginativo. Qualidades literárias dignas de nota. Tendências simbólicas. Erro egocêntrico. Certos efeitos poéticos, certos descritivos, são talvez a expressão de ilusões sensoriais. Palavras sublinhadas, justamente as que o doente mais valoriza: «imendoeira», «poço», «fórmulas», «golgotha »... O colorido erótico das suas ideias ambiciosas está expresso num grande número de cartas, que constituem uma documentação excepcionalmente rica. As últimas, muito posteriores ao já referido estudo do prof. Bombarda, espiritualizam, bisantinisam ainda mais as suas relações com a R.: tuteando- a ainda, trata-a agora de «irmã» Refunde a sua memória sobre o balão dirigível e envía-lha (Janeiro, 1900) acompanhada duma carta onde se lêem os seguintes períodos: "Desta preciosíssima jóia, que por sua valia e beleza constitui a maior maravilha do mundo, faço-te eu, de joelhos, propriedade absoluta e  perpétua, a ti, minha excelsa soberana..." E mais adiante: «Eis, minha santa e querida irmã, o mimo que, por minhas mãos, Deus te oferece... .» Por ultimo, empraza a R. para Paris e despede-se «até á gloria». Nesta carta dá como «restaurado o balão, causa inocente de um grande martírio e da mais formidável revolução que se tem feito na terra...» As ideias eróticas, inventórias e de perseguição, fixam-se, integram-se e sistematizam-se num delírio  único, completando-se e explicando-se reciprocamente.
XII. — A. P. de L., 21 anos. Escriturário de fazenda, índice cefálico 76,2 (14,4-18,9). Orelha direita mal modelada: assimetria. Rebordos orbitários salientes. Crânio alongado e acuminado no extremo occipital. Estrabismo divergente. Estreitamento do campo visual. Meia anestesia nos últimos segmentos do membro inferior. Vestígios de limfatismo. Perturbações vaso-motrizes tendo a sua principal sede na extremidade cefálica : fácil congestionamento da face. Preso por subtracção fraudulenta. Um passado de vagabundagem, de excessos sexuais, de ociosidade. Ataques epilepioides. É discursador, balofo, egoísta, d'uma ..infatuação meio imbecil». 
Diagnostico: loucura moral. Este caso deu ao ilustre prof Bombarda um dos seus estudos medico-legais. — Encontro na documentação do doente um manuscrito de "Pensamentos", forgicado numa linguagem
de colorido arqui-rétorico, pastosa, empolada, prenhe de velhas alegorias "...a bandeira da honra cahindo na lama dos vícios", "O templo da inocência", " . . .em letras doiro os segredos de Orpheu", etc. De repente descamba na escurrilidade, para de novo se erguer em lastimas e imprecações contra «a mulher vaidosa que o levou ás trevas da desonra...' Palavras de penitencia, sentimentalidades declamatórias, versos de permeio, e de vez em quando um certo ar dogmático: "Sabei ! nem a mulher nem o ouro constituem a felicidade do coração humano". De espaço a espaço, como nos escritos do paranóico, figurações simbólicas substituindo as palavras. Mudança vulgar do tipo de letra. Abuso de capítulos.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Duas Curiosidades em Matosinhos

Íamos  ver os ex-votos no museu da Santa Casa da Misericórdia mas estava fechado por causa da tempestade na noite anterior, no caminho encontramos estas curiosidades:
A mota da Nossa Senhora dos Reflectores
 


 e uma pintura duma paisagem do Porto de Leixões sobre uma parede duma sala de máquinas